26 de abr de 2015

O PROJETO UBUNTU DO MARISTA


No ano de 2014, iniciei na Escola Marista (clique para conhecer) o grupo de dança com os alunos do ensino médio do turno noturno. As aulas aconteciam a tarde. Esse grupo eu repeti a fórmula que experimentei nas aulas de dança que administrei nas escolas Degraus do Sabes e Exemplar Colégio e Curso. Um projeto que hoje decidi formatar e aplicar em outras instituições de ensino. Os resultados desta forma de ensinar dança se destacou pela beleza e resultados, arrancando elogios e olhares admirados de pais e coordenadores. Escrevo isso sem falsa modéstia.
Como tem funcionado, manterei a fórmula e hoje compartilho um pouco sobre este  projeto. Começo pelo esqueleto:

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Ele se fundamenta no Tema Transversal Pluralidade Cultural, sugerido pelos Parâmetros Curriculares Nacionais Brasileiros. A saber:

"Em conjunto com as outras áreas de conhecimento trabalhadas na escola, na área de Artes pode-se problematizar situações em que os alunos tenham oportunidade de perceber a multiplicidade de pensamentos, ações, atitudes, valores e princípios relacionados à ética, meio ambiente, orientação sexual, (...)pluralidade cultural, além de outros temas locais definidos na organização escolar. Para trabalhar os temas transversais na área de Artes, deve-se ainda levar em consideração as especificidades da área, procurando nos conteúdos aspectos que os integrem a ela."
(pág. 38 - PCNs Artes- 3º e 4º Ciclo)

Pluralidade cultural é um conceito aplicado a grupos de diferentes origens mas que estão unidos graças a influências históricas. Geralmente permanecem juntos em relativa harmonia de convivência, por estarem no mesmo território e compartilharem algumas crenças ou modos de sobrevivência. Estes grupos tão distintos, e não raro antagônicos em sua forma de compreender o mundo, compartilham a mesma situação sociocultural. Darci Ribeiro, em sua obra O Povo Brasileiro definiu cinco enormes grupos culturais que formam, antropologicamente falando, o povo brasileiro. São eles: Criolo, Caboclo, Sertanejo, Caipira e Sulinos. Todos estes cinco enormes grupos, que por si já apontam a riqueza de nosso país com grande pluralidade cultural, possuem a mesma raiz: as matrizes culturais herdadas pelo convívio entre habitantes Ameríndios, Africanos e Europeus que aqui se relacionaram por séculos. O objetivo principal de se trabalhar este tema transversal no ambiente escolar é:

"...promover o entendimento de cruzamentos culturais pela identificação de similaridades, particularmente nos papéis e funções da arte, dentro e entre grupos culturais; reconhecer e celebrar a diversidade étnica e cultural em arte e em nossa sociedade, enquanto também se potencializa o orgulho pela herança cultural em cada indivíduo, seja ela resultante em processos de erudição ou de vivência do âmbito popular, folclórico ou étnico; possibilitar a problematização do etnocentrismo, esteriótipos culturais, preconceitos, discriminação e racismos nas ações que demarcam os eixos de aprendizagem..."
(pág. 42 - PCNs Artes - 3º e 4º Ciclo)

ESCOLHA DO NOME

Ubuntu. Um nome de origem africana, um conceito universal. Uma palavra, tal como 'Amor', que mal consegue expressar a magnitude do significado que abarca. Só mesmo um produto artístico para explicar a beleza do conceito Ubuntu. Assim que a conheci, batizei o grupo de dança com este nome. Hoje repito o mesmo conceito por ainda enxergar nesta maravilhosa palavra tudo que sonho para o ensino da Dança na escola. Vamos ao conto Ubuntu:


MANEIRA DE ENSINAR 

Graças a UFRN conheci Paulo Freire. Para ele o enfoque do ensino precisa ser globalizado e o conteúdo precisa estar intrínseco à realidade do aluno. Confesso que não é o caminho mais tranquilo para o professor de dança, já que é preciso estimular e problematizar o tempo todo o conteúdo em  aula ou ensaio. Se em disciplinas de cunho científico, como Português e Matemática, isso é um desafio que dirá nas disciplinas de Artes cuja a criatividade e a iniciativa é o motor para gerar o conhecimento! Em outras palavras, é preciso sensibilidade e diplomacia para criar um denominador entre os prazos e os planejamentos em um campo de conhecimento naturalmente  conhecido pela aversão à prazos e planos. Por que? porque a improvisação e a criação artística nascem do ócio e do espírito contemplativo e na dança não é diferente Mas em uma coisa o 'aprender fazendo' grita a favor do ensino da dança na escola: o conhecimento adquirido através da dança só pode ser realmente acessado se for vivenciado dentro de uma compreensão e intervenção da realidade. Não se pode fazer arte sem a criticidade, não se pode aprender arte sem sensibilidade e questionamento!

Por isso, o projeto ensina a dança para além da repetição de coreografias escolhidas ou montadas 'pelo gosto' do coreógrafo. Do cenário, luz e som ao figurino e passos executados, os alunos estão envolvidos para que sintam e percebam que a dança é muito mais que o dançarino e a platéia. Isso se faz necessário, pois a dança é uma arte cênica. E entenda cênica com o pacote completo: cenário, figurino , sonoplastia, iluminação, relação com a platéia, criação da caixa cênica, improvisação e interpretação. Coisas que o senso comum só associam ao teatro e a ópera, mas que também estão presentes na dança por mais que o coreógrafo opte em suprimir algum elemento por puro prazer experimental estético ou necessidade.


No próximo texto falarei sobre as competência, habilidade, contexto e a estrutura do projeto. Até a próxima.

15 de mar de 2015

Flamenco e palavras: A MUDEZ CANTADA, A MUDEZ DANÇADA (parte final)

e concluindo esta deliciosa leitura do conto de Clarice Lispector presente no livro 'Para não esquecer', trago um dos meus trecho favoritos com um dos videos que mais a ele me remete. Espero que tenham gostado de acompanhar comigo nestes meus domingos 'quase' ociosos os deleites de nossa querida escritora.

"A dança propriamente dita se inicia. O homem é moreno, miúdo; obstinado. Ela severa e perigosa. Seus cabelos foram esticados, essa vaidade da dureza. É tão essencial essa dança que maç se compreende que a vida continue depois dela: este homem e esta mulher morrerão. Outras danças são a nostalgia dessa coragem. Esta dança é a coragem. Outras danças são alegres.A alegria desta é séria. Ou é dispensada. É um triunfo mortal de viver o que importa. Os dois não riem, não se perdoam. Compreendem-se? Nunca pensaram em se compreender, cada um trouxe a si mesmo como único estandarte. E quem for vencido - nessa dança os dois são vencidos - não se adoçará na submissão, terá aqueçes olhos finalmente espanhóis secos de amor de raiva. O esmagado - os dois serão esmagados - servirá vinho ao outro como um escravo. Embora nesse vinho, quando vier a paixão e o ciúme, possa estar a morte. O que sobreviver se sentirá vingado. MAs para sempre sozinho. Porque só esta mulher era a sua inimiga, só este homem era o seu inimigo, e eles se tinham escolhido para a dança.

8 de mar de 2015

Flamenco e palavras: A MUDEZ CANTADA, A MUDEZ DANÇADA (2ª parte)

Da obra de Clarice Lispector: "Para não esquecer"

Segue o segundo trecho do conto de Clarice Lispector que selecionei para apreciação com video. Trata-se das impressões da autora ao ter contato com apresentações flamencas na Espanha:

..E vi o par da dança flamenca. Não vi outra em que a rivalidade entre homem e mulher se pusesse tão a nu. Tão declarada é a guerra que não importam os ardis: por momentos a mulher torna quase masculina, e o homem a olha admirado. Se o mouro em terra espanhola é o mouro, a moura perdeu diante da aspereza basca a moleza fácil: a moura espanhola é um galo até o amor a transforme em Maja.
A conquista difícil nessa dança. Enquanto o dançarino fala com os pés teimosos, a dançarina percorrerá a aura do próprio corpo com as mãos em ventarola: assim ela se imanta, assim ela se prepara para tornar-se tocável e intocável. Mas quando menos se espera, sua botina de mulher avançará e marcará de súbito três pancadas.

O dançarino se arrepia diante dessa crua palavra, recua, imobiliza-se. Há silêncio de dança. Aos poucos o homem ergue de novo os braçõs, e precavido - com temor e não pudor -  tenta com as mãos espalmadas sombrear a cabeça orgulhosa da companheira. Rodeia-se várias e várias vezes e por momentos já se expõe quase de costas para ela, arriscando-se quem sabe a que punhalada. E se não foi apunhalado é que a dançarina de súbito reconheceu-lhe a coragem: este então é seu homem. Ela bate os pés, de cabeça erguida, em primeiro grito de amor: finalmente encontrou seu companheiro inimigo, Os dois recuaram eriçados. Reconheceram-se.




1 de mar de 2015

Flamenco e palavras: A MUDEZ CANTADA, A MUDEZ DANÇADA (1ª parte)

Da obra de Clarice Lispector, "Para Não Esquecer":

A MUDEZ CANTADA, A MUDEZ DANÇADA

Segue um trecho do conto de Clarice Lispector. Nessa maravilhosa obra sentimos toda a emoção e espanto que a escritora vivenciou ao desfrutar de uma apresentação flamenca na Espanha. Espero que desfrutem com os videos: